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Daily Chronicle entrevista Engels

Texto também disponível em formato de áudio na Áudioteca Crítica.

Friederich Engels concedeu a entrevista abaixo ao correspondente do jornal inglês depois do grande sucesso eleitoral da social-democracia alemã nas eleições parlamentares de junho de 1893, integralmente no n. 14 do jornal socialista italiano Critica Sociale. 1

(1° de julho de 1893)

Encontrei-me com o senhor Engels em sua casa na Regent’s Park Road e é claro que ele estava entusiasmado com o resultado das eleições para o Parlamento alemão. As minhas perguntas a respeito, ele respondeu:

Engels - Ganhamos dez cadeiras. No primeiro turno, obtivemos vinte e quatro cadeiras e dos nossos oitenta e cinco candidatos que restaram para o segundo turno, vinte foram eleitos. Ganhamos dezesseis cadeiras e perdemos seis, de modo que tivemos um ganho real de dez cadeiras. Temos cinco das seis cadeiras de Berlim.

Qual foi o número total de votos obtido por vocês?

Engels - Só saberemos disso quando o Parlamento se reunir e os relatórios da eleição forem apresentados, mas o senhor pode contar com um pouco mais do que 2 milhões de votos. Em 1890, obtivemos 1.427.000 de votos. E o senhor deve ponderar que esses são os votos exclusivamente socialistas! Todos os partidos se uniram contra nós, com exceção de uma pequena parcela do Partido Popular, que é uma espécie de partido republicano radical2. Nós lançamos 391 candidatos e não fizemos acordos com nenhum outro partido. Se tivéssemos buscado isso, poderíamos ter conseguido vinte ou trinta cadeiras a mais, mas nós recusamos firmemente todo e qualquer acordo, e é justamente isso que torna nossa posição tão forte.

Nenhum dos nossos candidatos têm obrigação de apoiar algum partido ou alguma medida, a não ser o programa do nosso partido.

Porém, os 2 milhões de eleitores não deveriam, de fato, ter resultado em mais cadeiras?

Engels - Isso se deve à distribuição equivocada das cadeiras. Quando o Parlamento foi composto pela primeira vez, pressupomos distritos eleitorais iguais com um deputado para cada 100 mil habitantes, porém o erro inicial, o crescimento da população, bem como a migração de e para as localidades, levaram a que o número de eleitores se tornasse muito diversos em cada um dos distritos eleitorais. Isso nos prejudica muito. Tome como exemplo o caso da cadeira de Liebknecht em Berlim: ele recebeu 51 mil votos em um distrito eleitoral com cerca de 500 mil habitantes.

E o que houve no caso das seis cadeiras que vocês perderam?

Engels - Bem, cada uma dessas cadeiras está associada a circunstâncias que explicam sua perda. Em 1890, Bremen foi visto com um feliz acaso.

Acabei de ouvir de Bebel que, em Lübeck, muitos trabalhadores estiveram ausentes e, se a eleição tivesse ocorrido no inverno, teríamos mantido a cadeira. Ademais, o senhor deve ponderar que depressões comerciais nos atingem com mais força do que atingem vocês, e tivemos de lutar contra a ferrenha inimizade de todo empresário.

Embora o voto seja secreto, pessoas com interesses encontraram meios de contornar o segredo do sufrágio. Não votamos preenchendo uma cédula de votação na hora, como vocês fazem na Inglaterra, mas com cédulas de votação que cada eleitor traz de casa. Além disso, a depressão comercial e a epidemia de cólera de 1892 forçaram muitos trabalhadores a aceitar auxílio público, o que suspende por um ano seu direito de votar.

Porém, estou mais orgulhoso de nossas derrotas do que de nossas vitórias [prosseguiu o senhor Engels]. No distrito eleitoral Dresden-Land, faltaram-nos apenas 100 votos em comparação com o candidato eleito, que recebeu os votos de todos os outros partidos, e isto num total de 32 mil votos. Em Ottensen, faltaram para o nosso candidato apenas 500 votos em comparação com os do deputado eleito, que foi apoiado da mesma maneira, num total de 27 mil votos. Em Stuttgart, o nosso candidato obteve 13.315 votos - só 128 menos que o deputado eleito. Em Lübeck, ficamos atrás por apenas 154 votos, num total de 19 mil votos. E esses são, como eu já disse, votos exclusivamente socialistas diante de uma coalizão formada por todos os outros partidos.

Fale-me, então, do seu programa político!

Engels - Nosso programa é quase idêntico ao da Federação Social-Democrata na Inglaterra3, embora nossa política seja bem diferente.

Presumo que ela se assemelhe mais à política da Sociedade Fabiana4?

Engels - Não, de modo nenhum [replicou com vivacidade]. Para mim, a Sociedade Fabiana não passa de uma filial do Partido Liberal. Ela aspira à renovação social somente com os meios aprovados por seu partido.

Nós somos oposição a todos os outros partidos políticos e combateremos todos eles. A Federação Social-Democrata é apenas uma pequena seita e também age assim. Ela é um clube exclusivo. Ela não conseguiu assumir a liderança do movimento global dos trabalhadores nem orientá-los para o socialismo. Ela converteu o marxismo em ortodoxia. Nesse sentido, ela exigiu, por ocasião da greve dos estivadores, que John Burns içasse a bandeira vermelha, sendo que, uma medida como essa teria acabado com todo o movimento e, em vez de conquistar os estivadores, os teria empurrado de volta para os braços dos capitalistas. Nós não fazemos nada disso. Ainda assim, nosso programa é puramente socialista. Nossa primeira exigência é a socialização de todos os meios de produção e instrumentos de produção. Nós aceitamos tudo o que qualquer governo nos dá, mas apenas como pagamento antecipado pelo qual não temos dívida de gratidão. Nós sempre votamos contra o orçamento e toda requisição de dinheiro ou pessoal para as forças armadas. Nos distritos eleitorais em que não tivemos candidatos para o segundo turno, orientamos nossos adeptos a votar apenas nos candidatos que se comprometeram a se posicionar contra o orçamento militar, contra todo aumento de impostos e contra todo cerceamento dos direitos do povo.

E quais serão as decorrências da eleição para a política alemã?

Engels - O projeto de lei do orçamento militar será aprovado5. A oposição se encontra diante do colapso total. De fato, nós somos agora a única oposição real e consistente. Os liberais nacionalistas se uniram aos conservadores. O Partido de Mente Livre se dividiu em duas facções e a eleição praticamente o aniquilou. Os católicos e as pequenas facções não querem arriscar uma nova cisão, e eles preferirão ceder a oferecer resistência.

Passando agora para a política europeia, quais são, na sua opinião, as decorrências das eleições para ela?

Engels - Bem, quando o orçamento militar tiver sido aprovado, a França e a Rússia evidentemente empreenderão algo na mesma linha. A França já deu um jeito de alistar toda a sua população masculina no exército, incluindo as pessoas fisicamente ineptas, mas, sem dúvida, ela se ocupará com o aperfeiçoamento de seu exército como maquinaria de guerra. A Rússia terá dificuldades para encontrar oficiais. A Áustria e a Alemanha naturalmente se aliarão.

De acordo com isso, as perspectivas para a paz na Europa seriam bem ruins?

Engels - É claro que qualquer coisinha pode desencadear um conflito, mas não creio que os governantes desses países queiram uma guerra.

A precisão e o alcance de tiro das novas armas de fogo ligeiras e a introdução da pólvora sem fumaça representam uma revolução tão grande na condução da guerra que ninguém consegue predizer a tática correta de batalha sob essas novas condições. Seria um salto no escuro. E os exércitos que se confrontarão no futuro serão tão poderosos que, comparadas com a próxima guerra, todas as guerras passadas foram brincadeiras de criança.

E, na sua opinião, que influência terá na Europa o Partido Social-Democrata?

Engels - Nós obviamente somos a favor da paz. Sempre protestamos contra a anexação da Alsácia-Lorena e, depois de Sedan, Marx e eu redigimos uma correspondência da Internacional, na qual apontamos que não há nenhum conflito entre o povo alemão e a república francesa, na qual exigimos a paz sob condições honradas e também chamamos a atenção exatamente para aquilo que mais tarde aconteceu - que essa anexação empurraria a França para os braços da Rússia e seria uma constante ameaça para a paz na Europa. Nosso partido sempre defendeu no Parlamento que se deve dar aos habitantes da Alsácia-Lorena a oportunidade de decidir seu destino futuro, se querem voltar a se unir à França, se querem permanecer alemães, unir-se à Suíça ou se tornar independentes.

De acordo com isso, o senhor conta, em um tempo não muito distante, com os “Estados Unidos da Europa”?

Engels - Certamente. Tudo leva a isso. Nossas ideias estão sendo disseminadas em cada país da Europa. Aqui está [ele pegou um grosso volume] nossa nova revista para a Romênia. Temos uma parecida para a Bulgária. Os trabalhadores do mundo aprendem rápido a se unir.

O senhor poderia me dizer alguns números para ilustrar o crescimento do socialismo na Alemanha?

O senhor Engels buscou, então, um diagrama cuidadosamente elaborado que mostrava a quantidade de votos de cada partido em todas as eleições realizadas desde a constituição do Parlamento em seu formato atual, dizendo:

Engels - No ano 1877, recebemos 500 mil votos; em 1881, em consequência do rigor da lei antissocialista, apenas 300 mil; em 1884, 550 mil votos e, em 1890, 1,437 milhão de votos. Dessa vez, obtivemos mais de 2 milhões de votos.

E a que o senhor atribui esse espantoso crescimento?

Engels - Principalmente a causas econômicas. Desde 1860, passamos, na Alemanha, por uma revolução industrial com todos os seus efeitos colaterais deletérios, tão grande quanto a que vocês tiveram na Inglaterra de 1760 a 1810.

Os empresários de vocês sabem muito bem disso. Ademais, a atual depressão comercial afetou nosso jovem país industrial mais do que o de vocês, que é um velho país industrial. Por conseguinte, a pressão sobre os trabalhadores foi maior. Quando falo de trabalhador, tenho em mente todas as classes de trabalhadores. O pequeno comerciante que é arruinado pelo grande empreendimento comercial, o empregado, o artífice, o trabalhador urbano e o rural, todos começam a sentir a pressão do atual sistema capitalista. Nós lhes apontamos uma saída cientificamente fundamentada, e como todos eles sabem ler e pensar por si mesmos, logo tiram as conclusões corretas e somam-se às nossas fileiras.

Nossa organização é primorosa, provocando admiração e desespero em nossos oponentes. Ela se tornou primorosa graças à lei antissocialista de Bismarck, que era muito similar às leis de exceção que vocês fizeram para a Irlanda. Ademais, nosso treinamento militar e nossa disciplina são inestimáveis. Todos os 240 mil eleitores de Hamburgo receberam nosso material de campanha e nossa literatura em 15 minutos. No ano passado, até as autoridades dessa cidade pediram que as ajudássemos a despachar as instruções de combate à cólera.

Portanto, o senhor espera ver - e todos estão nessa expectativa - em breve um governo socialista no poder?

Engels - Por que não? Se o nosso partido continuar crescendo como até agora, teremos a maioria entre 1900 e 1910. E, quando isso acontecer, o senhor pode ter certeza que não nos faltarão ideias nem pessoas para executá-las. Suponho que, quando esse tempo chegar, o seu povo terá um governo em que o senhor Sidney Webb ficará de cabelos brancos tentando persuadir o Partido Liberal. Não acreditamos que os partidos burgueses possam ser persuadidos. Nós persuadimos o povo.

Disponível em Entrevistas / Karl Marx, Friedrich Engels; tradução Nélio Schneider; apresentação Murillo van der Laan. - 1. ed. - São Paulo : Boitempo, 2025.

Notas

  1. (N. E. A.) [Karl Marx e Friederich Engels, MEGA³, v.1, n.31, Berlim, Akademie, 2002, p. 387-8.] ↩

  2. Referência ao Partido Popular de Mente Livre, que se formara em maio de 1893, em consequência da cisão do Partido de Mente Livre Alemão. A cisão do partido ocorreu no dia da dissolução do Parlamento, em 6 de maio de 1893, em razão das diferenças de opinião sobre o projeto de lei do orçamento militar. Parte da fração parlamentar desse partido, liderada por Rickert e Barth, começou a apoiar o governo e formou um novo partido - a União de Mente Livre. A outra parte da fração parlamentar, sob a liderança de Eugen Richter, que representava os elementos radicais no interior do partido, voltou-se contra o aumento dos gastos militares. Essa parte passou a se denominar Partido Popular de Mente Livre. (N. E. A) ↩

  3. A Social Democratic Federation foi uma organização socialista inglesa fundada em agosto de 1884 que reuniu os mais diversificados elementos socialistas, preponderantemente de círculos da inteligência. A direção da Federação esteve por muito tempo em poder de reformistas. ↩

  4. A Fabian Society era uma organização reformista inglesa, fundada em 1884 por integrantes da inteligência burguesa; seus líderes foram Sidney e Beatrice Webb. A sociedade foi denominada segundo o general romano do século V antes da nossa era, Fabius Maximus que, em função de sua tática de espera e por evitar batalhas decisivas na guerra contra Aníbal recebera o apelido de Cunctator [Vacilante]. Os membros da Sociedade Fabiana eram, em sua maioria, integrantes da inteligência burguesa. Eles se opuseram às teorias marxianas da luta de classes do proletariado e da revolução socialista e afirmaram que a transição do capitalismo para o socialismo se daria pela via das pequenas reformas, da transformação gradativa da sociedade com a ajuda do assim chamado socialismo municipal. A Sociedade Fabiana foi e ainda é portadora e intermediadora da influência burguesa no movimento dos trabalhadores inglês. V. I. Lênin caracterizou a Sociedade Fabiana como “a expressão consumada do oportunismo e de uma política liberal dos trabalhadores”. Vladímir I. Lênin, Werke, v. 21 (Berlim, 1960), p. 258. No ano 1900, a Sociedade Fabiana aderiu ao Labour Party. O “socialismo fabiano” é uma das fontes do revisionismo e do reformismo no movimento dos trabalhadores inglês. (N.E.A.) ↩

  5. Em formato modificado, o projeto de lei, rejeitado em maio de 1893, foi apresentado pelo governo ao novo Parlamento para ser ratificado, sendo aprovado no dia 15 de iulho de 1893. Desse modo. o governo obteve a possibilidade de aumentar os gastos militares e elevar o orcamento de guerra a cada cinco anos (quinquênio) e não a cada sete anos, como consta nas leis do septênio de 1874, 1880 e 1887.(N. (N.E.A.) ↩